Ticker

6/recent/ticker-posts

O curso de Medicina da Universidade federal em Altamira, UFPA, tem desempenho baixo no exame do ENAMED, confira!

O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica no Pará: Análise Estrutural do Desempenho da UFPA Altamira e as Implicações para o Ensino Superior e a Saúde na Transamazônica


UFPA CAMPUS II -Altamira

A divulgação dos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), em janeiro de 2026, consolidou um marco regulatório sem precedentes na história da educação superior brasileira. Ao substituir o antigo modelo do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para o curso de medicina, o Enamed não apenas recalibrou os instrumentos de medição de proficiência, mas também introduziu um regime de consequências imediatas que impactam a autonomia das instituições de ensino e a trajetória profissional dos graduandos. No estado do Pará, os dados revelaram um cenário de contrastes profundos: enquanto a Universidade do Estado do Pará (UEPA) em Marabá alcançou a excelência com o conceito máximo, o campus de Altamira da Universidade Federal do Pará (UFPA) registrou o conceito 1, a nota mínima da avaliação. Este resultado não é um dado isolado, mas o reflexo de uma crise estrutural que envolve a falta de corpo docente, a precariedade de campos de prática e os desafios inerentes à interiorização do ensino médico em regiões de alta vulnerabilidade social, como a bacia do Xingu.   

O Novo Paradigma da Avaliação Médica: Do ENADE ao ENAMED

A transição para o Enamed, formalizada em abril de 2025, respondeu a uma demanda histórica de entidades médicas e órgãos de regulação por um exame que mensurasse de forma mais precisa as competências clínicas e o raciocínio diagnóstico dos futuros médicos. Conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em colaboração com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), o exame passou a ser anual e obrigatório para os concluintes, unificando as matrizes de referência com o Exame Nacional de Residência (Enare). Esta unificação conferiu ao Enamed um protagonismo inédito: a nota obtida pelo estudante deixa de ser apenas um indicador estatístico da instituição para se tornar um critério de peso na seleção para programas de residência médica em todo o país.   

Em termos nacionais, o balanço de 2025 apresentou um diagnóstico preocupante para o sistema federal e privado de ensino. Dos 351 cursos de medicina avaliados, cerca de 30% ficaram na faixa insatisfatória, correspondendo aos conceitos 1 e 2. No universo das 304 instituições vinculadas ao Sistema Federal de Ensino, 99 cursos foram enquadrados nestas notas baixas, o que significa que menos de 60% de seus estudantes atingiram a proficiência mínima adequada. O volume de alunos afetados é expressivo: aproximadamente 13 mil futuros profissionais concluíram a faculdade sem demonstrar competências consideradas essenciais pelo Ministério da Educação (MEC) para o exercício seguro da medicina.   

O Sistema de Avaliação e a Definição de Proficiência

O Enamed utiliza uma escala de 1 a 5, onde os conceitos 1 e 2 indicam desempenho insatisfatório e disparam processos automáticos de supervisão pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres). A proficiência é medida através de instrumentos que avaliam o domínio das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), com foco em áreas como clínica médica, cirurgia, ginecologia e obstetrícia, pediatria e saúde coletiva. Para o Conselho Federal de Medicina (CFM), os resultados do Enamed 2025 confirmam o alerta sobre a expansão desordenada de cursos sem a infraestrutura necessária, especialmente no setor privado, onde se concentra a maioria das notas 1 e 2. No entanto, o caso da UFPA Altamira destaca-se negativamente por ser uma das poucas universidades públicas federais a figurar na base da pirâmide de desempenho nacional.   

Panorama Regional: O Desempenho das Faculdades de Medicina no Pará

No Pará, a avaliação do Enamed 2025 desenhou um mapa de desigualdades educacionais que desafia a narrativa de sucesso da expansão do ensino no interior. Embora 66,7% dos cursos avaliados no estado tenham obtido desempenho satisfatório (notas de 3 a 5), a concentração de resultados negativos em polos estratégicos como Altamira e Marabá (no caso de instituições privadas) acende um alerta sobre a qualidade da assistência futura nessas regiões.   


A performance da UEPA Marabá, única instituição da Região Norte a atingir a nota máxima, demonstra que a gestão pública estadual conseguiu consolidar um modelo de ensino robusto fora da capital, possivelmente devido à integração com a rede hospitalar regional e à estabilidade do corpo docente. Em contrapartida, a UFPA, maior universidade da região, apresenta uma dualidade perigosa: enquanto o campus de Belém mantém-se na média satisfatória com nota 3, o campus de Altamira mergulha no conceito 1, indicando uma falência dos processos pedagógicos e estruturais na unidade do sudoeste paraense.   

Desempenho da Iniciativa Privada e Discrepâncias de Dados

As instituições privadas no Pará também enfrentam desafios significativos. O Unifamaz em Belém e a faculdade Afya em Marabá receberam conceito 2, o que implica restrições imediatas à expansão de vagas e ao acesso a programas de financiamento federal como o Fies e o Prouni. A Afya, em nota oficial, manifestou discordância em relação aos dados, alegando divergências entre os insumos reportados em dezembro de 2025 e o resultado final divulgado, ressaltando que a análise técnica está em curso para contestar as penalidades. Esta tensão entre o governo e as mantenedoras privadas reflete o caráter punitivo do novo exame, que foca na proficiência do egresso como régua para a sobrevivência comercial e acadêmica das instituições.   

O Caso Crítico da UFPA Altamira: Anatomia de um Fracasso Institucional

O resultado da UFPA Altamira no Enamed 2025 é classificado como catastrófico tanto pela pontuação absoluta quanto pelo contexto social em que a faculdade está inserida. Com o conceito 1, a instituição registrou que apenas 37,3% de seus formandos demonstraram conhecimentos adequados para a prática médica. Este índice é alarmante para um curso que, em 2023, havia recebido nota máxima (5) em avaliações de infraestrutura do MEC, sugerindo que existe um abismo entre as condições físicas instaladas e a efetiva entrega pedagógica aos alunos.   

O Paradoxal "Nota 5" vs. "Nota 1" e a Crise Docente

A gênese da crise em Altamira remonta a problemas estruturais crônicos denunciados sistematicamente pelos estudantes. Em meados de 2023, alunos do sexto período realizaram mobilizações e protestos para expor a ausência crítica de professores médicos no campus. A denúncia era direta: o curso possuía laboratórios e prédios (o que justificava a nota 5 de infraestrutura), mas carecia de docentes especialistas para ministrar as aulas práticas e teóricas do ciclo clínico. A falta de preceptores e médicos professores não apenas atrasou a conclusão do curso para diversas turmas, mas comprometeu a base de conhecimento necessária para o desempenho no Enamed.   

A universidade justificou a carência alegando a dificuldade histórica de fixação de médicos doutores na região do Xingu, um desafio compartilhado por outras cidades do interior da Amazônia. Contudo, para os alunos, essa justificativa é insuficiente diante da mensalidade social e do investimento público empenhado. O cenário de "resiliência exaustiva", termo utilizado para descrever estudantes que precisam buscar conhecimento de forma autodidata para compensar a ausência de supervisão qualificada, refletiu-se diretamente no baixo índice de proficiência captado pelo exame nacional.   

Origens e a Importância Estratégica do Campus Altamira

O curso de medicina da UFPA em Altamira não nasceu de um planejamento acadêmico convencional, mas de uma necessidade social premente e de acordos de compensação ambiental. Sua implantação foi subsidiada por propostas ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX), no contexto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O objetivo era formar médicos na região para que pudessem atender a demanda explosiva de saúde causada pela migração em massa durante a obra e, posteriormente, fixar esses profissionais na Transamazônica.   

Altamira é o centro de referência para o atendimento de populações tradicionais, ribeirinhas e indígenas de onze Terras Indígenas. A existência de uma faculdade de medicina local é, portanto, um pilar fundamental para a soberania sanitária do sudoeste do Pará. Quando este curso falha em sua qualidade, o prejuízo não é apenas acadêmico, mas um golpe na política de interiorização que visa reduzir o vácuo assistencial na Amazônia.   

Prejuízos para a Educação e a Qualidade do Ensino Superior Regional

A nota 1 no Enamed traz consequências administrativas imediatas e severas que podem levar ao fechamento progressivo da unidade se não houver uma intervenção radical. De acordo com as normas vigentes do MEC, instituições nesta faixa de desempenho estão sujeitas a medidas cautelares que incluem:

  • Suspensão total do ingresso de novos estudantes: A partir do primeiro semestre de 2026, a UFPA Altamira pode ser impedida de realizar novos processos seletivos para o curso de medicina até que as falhas sejam sanadas.   
  • Redução drástica de vagas: O MEC tem a prerrogativa de cortar em até 50% o número de vagas autorizadas, visando adequar a oferta à capacidade real de ensino e supervisão da instituição.   
  • Restrição financeira e de programas federais: A perda de acesso ao Fies e a proibição de novos contratos vinculados a bolsas governamentais asfixiam a viabilidade econômica de cursos, embora o impacto em uma universidade federal seja mais sentido na suspensão de recursos de custeio e novos investimentos.   
  • Processo Administrativo de Supervisão: A faculdade entra em um regime de monitoramento contínuo pela Seres/MEC, com a obrigatoriedade de apresentar um plano de metas e correções em um prazo de 30 dias após a notificação oficial.   

Estes prejuízos geram um efeito dominó na credibilidade do ensino superior na região. A UFPA Altamira, que deveria ser o modelo de excelência pública, passa a ser citada nacionalmente como uma das cinco piores universidades públicas do país em medicina. Isso desestimula a fixação de talentos acadêmicos na região e cria um estigma sobre a formação regional que afeta a autoestima da comunidade acadêmica e a confiança da população local nos serviços prestados pelos estagiários e residentes do campus.   

Consequências Diretas para os Futuros Profissionais

Para o estudante de medicina da UFPA Altamira, o resultado insatisfatório no Enamed representa um obstáculo concreto em sua inserção no mercado de trabalho e em sua formação continuada. O novo ecossistema de avaliação médica vinculou o desempenho acadêmico às oportunidades de especialização de forma indissociável.

O Impacto no ENARE e a Desvantagem Competitiva

O Enamed 2025 já serviu como insumo para o processo seletivo do Exame Nacional de Residência (Enare), o maior concurso de residência médica do Brasil. Os alunos oriundos de cursos com nota 1 e 2 carregam consigo uma marca institucional que, somada a baixos desempenhos individuais, reduz drasticamente suas chances de ocupar vagas em centros de excelência. A partir de 2026, a situação torna-se ainda mais crítica: o Enamed será aplicado também no 4º ano da graduação, e essa nota terá um peso permanente de 20% na nota final do Enare para sempre. Isso significa que um aluno que estuda em uma instituição sem professores médicos no 4º ano (como relatado nos protestos de Altamira) terá sua nota de residência comprometida permanentemente por uma falha estrutural da universidade.   

A Ameaça do Exame de Proficiência (Profimed)

Outra repercussão gravíssima é a movimentação política para transformar o Enamed em um exame de proficiência obrigatório para o exercício da profissão, semelhante ao Exame da Ordem dos Advogados (OAB). O Ministério da Saúde e o Ministério da Educação propuseram ao Congresso Nacional que o registro profissional (CRM) seja condicionado ao desempenho satisfatório no Enamed. Caso essa medida avance, os graduados da UFPA Altamira correm o risco real de não conseguirem trabalhar como médicos, mesmo após seis anos de curso, se a instituição não prover a base necessária para que eles alcancem a nota mínima exigida.   


Implicações para a Qualidade da Assistência de Saúde na Transamazônica

A falha na formação médica em Altamira não é apenas um problema de currículo; é um problema de saúde pública para toda a região da Transamazônica e do Xingu. Médicos mal formados ou a redução da oferta de vagas de medicina em um polo regional impactam diretamente o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) local.

A Vulnerabilidade do SUS no Sudoeste Paraense

Altamira é referência para o Hospital Regional Público da Transamazônica (HRPT), que atende casos de média e alta complexidade de uma população de 400 mil pessoas. A formação insuficiente de médicos locais significa que o hospital continuará dependente de profissionais "importados" de outras regiões, que muitas vezes possuem pouco vínculo com o território ou compreensão da realidade amazônida. Além disso, a precariedade do ensino reflete a precariedade dos campos de prática: se os alunos não têm professores especialistas para ensiná-los no hospital, os pacientes também não estão recebendo a assistência especializada que esses preceptores deveriam estar prestando.   

A pandemia de COVID-19 já havia demonstrado que Altamira opera no limite de sua capacidade, com escassez de médicos intensivistas e especialistas. Se o curso de medicina da UFPA não consegue elevar seu nível de proficiência para além do conceito 1, a promessa de Belo Monte de deixar um legado de saúde para a região torna-se uma dívida não paga, perpetuando o ciclo de mortes evitáveis por falta de profissionais qualificados.   

O Conceito de Medicina Amazônida e o Risco de Retrocesso

O movimento estudantil e acadêmico na região defende a construção de uma "medicina amazônida", voltada para as necessidades dos povos da floresta e baseada em uma práxis anticolonial e territorializada. No entanto, para que essa medicina humanista floresça, ela precisa estar ancorada em competências técnicas sólidas. O resultado do Enamed sugere que a UFPA Altamira falhou em prover o básico da técnica médica, o que inviabiliza qualquer pretensão de inovação curricular ou de formação diferenciada. Sem qualidade técnica, o discurso da territorialização torna-se vazio e perigoso para a população atendida.   

Críticas e Posicionamentos das Entidades de Classe

A divulgação das notas do Enamed 2025 provocou reações vigorosas de entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Sindicato dos Médicos do Estado do Pará (SINDMEPA). Para estas organizações, o resultado é a prova factual de que a expansão de escolas médicas no Brasil, incentivada por governos sucessivos, atingiu um ponto de saturação qualitativa insustentável.   

A Perspectiva do SINDMEPA e do CFM

O SINDMEPA manifestou profunda preocupação com o fato de um terço dos cursos de medicina do país falharem na formação de seus alunos. A entidade ressalta que a abertura de faculdades sem hospitais de ensino estruturados e sem corpo docente estável coloca em risco a segurança do paciente. No caso específico do Pará, o sindicato aponta que a concentração de notas baixas em instituições privadas e em um campus federal de interior como Altamira evidencia a falta de planejamento e de fiscalização rigorosa por parte do MEC.   

O CFM, por sua vez, aproveitou os dados para pressionar pela aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), argumentando que o diploma, por si só, não garante mais que o médico possua as competências mínimas para o exercício profissional. Para o conselho, é inaceitável que o Estado autorize o funcionamento de cursos que produzem resultados como o da UFPA Altamira, e que a suspensão de vagas nestas unidades é uma medida de proteção à sociedade.   

A Defesa da UFPA e o Caminho da Superação

A coordenação do curso de medicina da UFPA Altamira e a administração central da universidade informaram que estão analisando detalhadamente os dados para entender os fatores regionais e estruturais que levaram ao conceito 1. A instituição reconhece os desafios logísticos da Transamazônica e reforça o papel estratégico do campus, mas agora enfrenta a pressão de apresentar resultados práticos antes do próximo ciclo avaliativo em outubro de 2026.   

A superação deste quadro exigirá da UFPA não apenas defesas administrativas, mas uma reestruturação profunda que inclua:

  1. Concursos específicos e atrativos para médicos especialistas no campus de Altamira, possivelmente com gratificações de interiorização que permitam fixar o corpo docente.   
  2. Parcerias público-privadas e convênios com a rede hospitalar estadual (UEPA e HRPT) para garantir a preceptoria adequada durante o internato.   
  3. Investimento massivo em simulação realística e reforço pedagógico para as turmas atuais, visando mitigar os danos na formação já recebida.   

Conclusões e Perspectivas para o Futuro do Ensino Médico no Pará

O resultado do Enamed 2025 para as faculdades de medicina do Pará, centralizado no choque do conceito 1 da UFPA Altamira, serve como um divisor de águas para a educação superior na região. Fica evidente que a infraestrutura física, embora necessária, é insuficiente se não houver um investimento contínuo e estratégico no capital humano docente e na integração real com o sistema de saúde. O prejuízo para os estudantes de Altamira é imenso, traduzindo-se em barreiras no acesso à residência e no risco de impedimento do registro profissional.   

Para o Pará, a lição deixada pela UEPA Marabá é de que a excelência no interior é possível, mas requer um alinhamento rigoroso entre gestão acadêmica e assistência hospitalar. Para a UFPA, o conceito 1 é uma intimação à realidade: o processo de interiorização não pode ser apenas geográfico; ele deve ser, acima de tudo, qualitativo. O futuro do curso de medicina em Altamira, e consequentemente a qualidade da saúde na Transamazônica, depende da capacidade da instituição de transformar este revés em um plano de ação robusto, sob pena de ver um projeto de desenvolvimento regional transformar-se em uma fábrica de profissionais inseguros e de um sistema de saúde permanentemente fragilizado.   

A qualidade do ensino médico não é um indicador acadêmico abstrato; ela é medida, em última instância, pela segurança do paciente e pela eficácia do SUS. O Enamed, com todo o seu rigor e caráter punitivo, cumpriu seu papel de dar transparência a uma crise que já era gritada pelos alunos nos corredores e nas ruas de Altamira. Agora, cabe ao Estado brasileiro garantir que o diagnóstico seja seguido pelo tratamento adequado, assegurando que o direito à saúde e à educação de qualidade chegue, de fato, ao coração da Amazônia.   


Por: Portal Pérola do Xingu

Postar um comentário

0 Comentários